18 de Novembro de 2017

Como será o museu do futuro?

Um museu é um território de experiências e reflexão, onde as comunidades podem repensar suas histórias e memórias. Mas também ocupa a função de um agente de políticas locais e culturais, especialmente, no mundo contemporâneo conectado e disruptivo. Como será o futuro do museu em meio às novas mídias digitais e públicos que já nasceram dentro de uma lógica de comunicação fluida e muito mais veloz? Para analisar o panorama, desafios e novos paradigmas do segmento museal, o IV Seminário de Museologia Experimental & o Simpósio Internacional do Comitê Internacional de Museologia (ICOFOM),  realizados pelo Grupo de Pesquisa Museologia Experimental e Imagem (MEI), da UNIRIO, reuniram especialistas de todo Brasil e de instituições no exterior em painéis e debates durante dois dias no Museu da Vida, na Fiocruz, e no Oi Futuro.

O Brasil conta hoje com mais de três mil museus registrados. Na América Latina esse número pelo menos triplica resultando em milhões de visitantes ao ano em museus continente afora. Em pesquisa recente realizada pelo site Trip Advisor, um dos principais sites de viagens e cotações na internet do mundo, o Brasil possuía 12 dos 25 melhores museus da América do Sul, segundo internautas que avaliaram pontos como infraestrutura e conteúdo. Na lista estão desde museus como o Instituto Ricardo Brennand, em Recife, até como o Museus Inhotim, em Minas Gerais, passando por museus como o da Língua Portuguesa, em São Paulo,  e o Oscar Niemeyer, em Curitiba. Em um cenário tão rico quanto este, oportunidades de melhoria estão sempre em pauta em encontros do setor.

Por isso talvez um dos principais temas que permearam as discussões dos eventos foi a própria definição de “museu”. A historiadora e ativista Sandra Maria Teixeira questionou a existência de territórios para os museus e reforçou a importância da preservação das memórias a partir do caso do Museu das Remoções, localizado na Vila Autódromo, no Rio de Janeiro. Um plano museológico foi lançado este ano para estudar o local, na Lagoa de Jacarepaguá, que visa ratificar o museu territorial criado em maio de 2016 para documentar a luta contra o processo de remoção da comunidade da região. “Somos uma das poucas comunidades que resistiu a um processo de Olimpíadas, onde há a prática de remover os moradores de seus locais de origem. Cada tijolo que está na área do Museus das Remoções traz uma história e nós queremos contar isso da melhor forma possível, que é a céu aberto”, explicou Sandra, em mesa que reuniu nomes como a antropóloga Lygia Segalla (UFF), a educadora Gleyce Heitor (UFG) e o professor James Brown, da Universidade de Saint Andrews, na Escócia.

A apresentação do caso suscitou o debate em torno da discussão que questiona se para existir um museu há a necessidade de um componente físico (como um prédio ou uma sala, por exemplo) ou se ele pode estar espalhado por um território. Ao exemplificar o conceito, Gleyce apresentou o Museu da Beira da Linha do Coque, que fica em uma comunidade de baixa renda, em Recife, e é um Museu audiovisual itinerante que tem como objetivo propagar os traços culturais da região, conhecida majoritariamente como um local muito violento. “É uma oportunidade para redefinir o conceito de Museu principalmente nas favelas. O conceito antigo já não cabe mais nem nos museus tradicionais quanto nos disruptivos”, explicou Gleyce, que apresentou também um modelo de bicicleta-museu adotado pela região.

Outra temática discutida foi a adaptação da linguagem para o público nativo digital jovem. “Temos que pensar que a educação museal é diferente da educação aplicada nos museus. Uma das questões que temos que tentar aplicar é não setorizar tanto as pessoas por gênero, idade ou classe social, precisamos conseguir uma linguagem que esteja em comum acordo com todos os tipos de pessoas”, explicou Clarisse Duarte, museóloga e mestre em educação pela Unirio, que participou da mesa “Definir o Museu no Século XXI: desafios e proposições”.

Seguindo essa tendência de renovação dos espaços dos museus, o Oi Futuro lançou recentemente o Edital de Ludificação do acervo do museu das telecomunicações. A ação é um reflexo do que o instituto tem pensando sobre o futuro dos museus. “Começamos a ver que era preciso inovar as narrativas e a forma de apresenta-las. A ludificação nunca foi utilizada em um museu brasileiro, é mais do que gamificar um museu, é uma forma de trazer criadores, atores e desenvolvedores desse universo de jogos, aplicativos e experiências imersivas com narrativas vindas do storytelling para reapresentar o novo acervo histórico do museus das telecomunicações”, explica Bruna Cruz, museóloga do Oi Futuro.